Arquivo do mês: julho 2012

Sobre tufões e borboletas

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Ela está no balanço feito de pneu velho carinhosamente montado pelo seu avô em uma mangueira a poucos metros de sua casa, sente o cheiro das frutas logo acima da sua cabeça, inclina o corpo e as observa. Sua fruta preferida, estão quase maduras! Balança mais alto e a cada movimento, a cada respirar, sente mais intensamente o perfume doce e o sabor da vida.

Observa sua casa, a rua distante, o rio logo abaixo e alguns carros, pequenos pontos ao sul. Continua a balançar, agora com os olhos fechados, sente o vento e o aroma em um momento de total introspecção. Consegue sentir o ar penetrar em cada ponto do seu corpo, pela primeira vez, todo o corpo faz sentido e como se ocorrece um lapso no tempo, abre os olhos e vê tudo cinza. O balanço vai a toda a velocidade e ela não consegue controlá-lo, percebe que ele se desprendeu da árvore e está a metros do chão. O movimento não é mais de um pêndulo e sim circular.

Assutada, percebe que sua casa e os carros também giram na mesma parede circular invisível de vento, estão no centro de um tufão. A velocidade do vento, torna seus pensamentos e sentidos confusos, mas o seu corpo, assim como sua respiração permanecem intactos. Pânico, teme não descer novamente, teme que o vento pare e que seja arremessada, teme o fim. Observa sua casa se desfazendo, os carros já não estão mais ali.

Seu coração está disparado, fecha os olhos e abre novamente. Vê millhares de borboletas voando intactas a influência do furacão. Como elas conseguem? Movimentos sincronizados de subida e descida. Borboletas roxas.

De repente, se percebe no meio delas, não, se percebe como uma delas. O medo sumiu e o vento se torna agradável. O voar é um prazer. Se afasta do grupo e voa, para onde seu coração manda. Enfrenta novos tufões, mas agora eles não lhe causarão mais medo.