Arquivo do mês: janeiro 2013

Sons

O início era uma melodia quase triste, levemente impedida de se propagar por uma parede de vidro, mas que insistia em arrepiar as mãos que tocava seus cabelos. A cabeça sobre o seu colo e um sonho se esvaindo, levado por suas parcas palavras envolvidas pela melodia insistente.

Acabou-se a melodia, momentos de silêncio. Apenas o tilintar de duas taças de vinho. Silêncio.

No florescer de uma orquídea, um novo tom. Mais vibrante, belo e contagiante. Quanto tempo contagiou o seu ser? Eternamente! Qual é o cheiro desse som? Cheiro de vida!

A vibração nunca cessará, mas a distância se colocou entre o belo e o que sobrou dela. Ao separar o que era seu e o que era do som vibrante, descobriu a triste melodia falsamente adormecida! Tapou os ouvidos, tentou fingir a inexistência da melodia, mas o gosto deste som era implacável aos seus sentidos.

Parou de fugir, ouviu a melodia até o fim. Silêncio. As vezes, escuta, mesmo com o impedimento da distância, a bela e vibrante melodia, a tocar o seu corpo, a tocar o seu ser redescoberto, a entranhar pelos seus poros a essência da vida.

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Corpo e Pele

A pele que habito - 11

A pele, o limite físico do corpo, forma e matéria que delineia a percepção de fora sobre o que somos, que oferece conteúdo para a miscelânia de fatores que estão relacionados a nossa identidade.

Quero me permitir pensar a pele para além do órgão, pensá-la em sua função na relação do eu com o mundo. Mas o eu, termina na pele? O eu transcende. O que somos ultrapassa os limites dos contornos impostos por este órgão. Mas qual a influencia deste demarcação corporal na definição do que somos? A cor, os contornos, nos enquadra em grupos raciais e de gênero que influenciam profundamente o eu. O que é habitar um corpo, ser um corpo? Qual a pele que habito?

O filme “A pele que habito” de Almodóvar nos instiga a deslocar e a observar as relações humanas a partir de outros ângulos. É claro, para quem estiver disposto a permitir tal deslocamento e colocar em cheque verdades pré-estabelecidas de gênero que, muitas vezes, fazem parte do alicerce da própria identidade. É um convite para além das relações padronizadas de gênero e dos comportamentos “possíveis”. Submergindo da questão mais abstrata de pensar a questão da pele e do corpo como barreira, fronteira, limite, contorno ou definição do que somos, abro parênteses para trazer as polêmicas claras que o filme oferece.

 Vingança é um clichê, mas uma vaginoplastia forçada, manipulação de personalidade, transexualismo, ambivalência de sentimentos deixam a trama quase intragável, inaceitável, porém, fantástica! É preciso goles de auto-permissão para digerir a história e mergulhar nas reflexões passíveis pós sessão.

 Nenhum comportamento dos personagens do filme é trivial, a trama surpreende e os personagens são ambíguos. Nada de maldade pura e de explicações baseadas na normatividade.

 Vivemos em um momento em que as modificações corporais mais inusitadas são possíveis graças a ciência. Hoje, com o avanço científico, a mudança de sexo se é uma realidade e balança com muito padrões da estrutura heterocentrica e da divisão natural das pessoas entre homens e mulheres. Direito para alguns, inadmissível para outros, o transexualismo se faz presente e definitivamente não é um processo fácil de se entender, é complexo e merece ser pensado de acordo com sua complexidade.

Explicações, análises, patologização tem aos montes e deixo para os que preferem este caminho. Prefiro pensar pelo viés do incomodo. Porque tanto incomoda? Talvez, pelo fato da simples possibilidade da escolha se apresentar a nossa frente e necessariamente termos que nos confrontar com ela. É isso mesmo, podemos escolher ser transexual! Algo tão natualizado quanto o sexo é passível de modificação. As certezas caem e o inconsciente borbulha!

 O que mais mexe com as estruturas já tão pouco rígidas da masculidade hegemônica é que a vaginoplastia no filme é um ato forçado. O rapaz não tem escolha e alguns homens estremecem só de pensar nesta possibilidade, o que torna o filme intragável para muitos. Além disso, o médico se apaixona pela mulher que “criou” o que também balança com o “nunca pegaria um trans” do discurso de muitos super orgulhos heteros.

O filme traz tantos elementos que ficaria horas debruçada sobre eles, mas o mais interessante é que dialoga bem com as ideias pós-identitárias, pós-gênero e queer significativamente difundidas na atualidade. E é isso, adoro o que incomoda, pois só com o incomodo pensamos em novas possibilidades.

“E o corpo ainda é pouco”