Corpo e Pele

A pele que habito - 11

A pele, o limite físico do corpo, forma e matéria que delineia a percepção de fora sobre o que somos, que oferece conteúdo para a miscelânia de fatores que estão relacionados a nossa identidade.

Quero me permitir pensar a pele para além do órgão, pensá-la em sua função na relação do eu com o mundo. Mas o eu, termina na pele? O eu transcende. O que somos ultrapassa os limites dos contornos impostos por este órgão. Mas qual a influencia deste demarcação corporal na definição do que somos? A cor, os contornos, nos enquadra em grupos raciais e de gênero que influenciam profundamente o eu. O que é habitar um corpo, ser um corpo? Qual a pele que habito?

O filme “A pele que habito” de Almodóvar nos instiga a deslocar e a observar as relações humanas a partir de outros ângulos. É claro, para quem estiver disposto a permitir tal deslocamento e colocar em cheque verdades pré-estabelecidas de gênero que, muitas vezes, fazem parte do alicerce da própria identidade. É um convite para além das relações padronizadas de gênero e dos comportamentos “possíveis”. Submergindo da questão mais abstrata de pensar a questão da pele e do corpo como barreira, fronteira, limite, contorno ou definição do que somos, abro parênteses para trazer as polêmicas claras que o filme oferece.

 Vingança é um clichê, mas uma vaginoplastia forçada, manipulação de personalidade, transexualismo, ambivalência de sentimentos deixam a trama quase intragável, inaceitável, porém, fantástica! É preciso goles de auto-permissão para digerir a história e mergulhar nas reflexões passíveis pós sessão.

 Nenhum comportamento dos personagens do filme é trivial, a trama surpreende e os personagens são ambíguos. Nada de maldade pura e de explicações baseadas na normatividade.

 Vivemos em um momento em que as modificações corporais mais inusitadas são possíveis graças a ciência. Hoje, com o avanço científico, a mudança de sexo se é uma realidade e balança com muito padrões da estrutura heterocentrica e da divisão natural das pessoas entre homens e mulheres. Direito para alguns, inadmissível para outros, o transexualismo se faz presente e definitivamente não é um processo fácil de se entender, é complexo e merece ser pensado de acordo com sua complexidade.

Explicações, análises, patologização tem aos montes e deixo para os que preferem este caminho. Prefiro pensar pelo viés do incomodo. Porque tanto incomoda? Talvez, pelo fato da simples possibilidade da escolha se apresentar a nossa frente e necessariamente termos que nos confrontar com ela. É isso mesmo, podemos escolher ser transexual! Algo tão natualizado quanto o sexo é passível de modificação. As certezas caem e o inconsciente borbulha!

 O que mais mexe com as estruturas já tão pouco rígidas da masculidade hegemônica é que a vaginoplastia no filme é um ato forçado. O rapaz não tem escolha e alguns homens estremecem só de pensar nesta possibilidade, o que torna o filme intragável para muitos. Além disso, o médico se apaixona pela mulher que “criou” o que também balança com o “nunca pegaria um trans” do discurso de muitos super orgulhos heteros.

O filme traz tantos elementos que ficaria horas debruçada sobre eles, mas o mais interessante é que dialoga bem com as ideias pós-identitárias, pós-gênero e queer significativamente difundidas na atualidade. E é isso, adoro o que incomoda, pois só com o incomodo pensamos em novas possibilidades.

“E o corpo ainda é pouco”

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Sobre Liliane Ramos

Liliane Ramos - Psicóloga Social, Psicoterapeuta Humanista e Facilitadora de Grupos. Feminista, amante de filosofia, literatura, cinema, chocolate e gatos. Graduada em Psicologia pela UFMG e curso de formação em Psicoterapia Centrada no Cliente em andamento pelo Instituto Humanista de Psicoterapia. Ver todos os artigos de Liliane Ramos

2 respostas para “Corpo e Pele

  • Marcela

    Ótima provocação, adorei o texto. Me recorda um texto do qual gosto muito:
    “(…) Talvez haja quem consiga dar um saculejo de ombros para todas as ofertas de identidade nos cardápios locais ou globais – mas o saculejo encontra a toda hora o baculejo: a interpelação. Althusser entendia que era a interpelação que dava nome aos bois – identidade aos corpos. O sujeito é interpelado e se volta para quem lhe interpela – aquele expediente da polícia, e das ruas que nos chamam sapatão ou viado. É ali que se passa a trama da interpelação – e da errância. Como proceder? Diz Diana Torres, a pornoterrorista:

    – O pior que podes fazer a teu inimigo é não necessitar-lhe para nada.

    – Não me chamo lesbiana, nem sequer me considero mulher, quem quiser me interpelar me interpele, eu não viro a cara.

    O terrorismo é a arte do imprevisto. O errorismo é a arte do não-catalogado. Do que está fora do programa. Fora da casinha. O desejo ama esconder-se. A porno-errorista pensou que era sado-masoquista, que era goiabinha, que era travesti, quis ser baranga, boiola, Barbie e babadeira. Tava errada: era errante. O pior que podes fazer aos que te classificam é não necessitá-las para nada. O erro é pornô. Aquelas que tentam, tentam e são tentadas. Uma vida de tentação. Tentativa atrás de tentação. A porno-errorista também é terrorista, toca o terror do erro: e se eu não for hetero, quotidiano, fútil e tributável? E se eu não for o contrário de tudo isso, o contrário de qualquer coisa? A erótica do terror. O slogan do blog de Diana Torres: por el derecho a ponerme cachonda com que me dé la gana. Há baculejo na etiqueta, há baculejo na classificação – vira a cara, completa a interpelação! – mas não há baculejo no desejo. Ele erra por aí. (…)”

  • Fernanda Caroline Gonçalves Vilhena

    Ótimo texto, Lili! E o filme também… instigante, heim? Quase assisti nesse final de semana. Almodóvar tem esse dom de fazer a gente pensar por hoooras depois que o filme termina. De fato questões pós-gênero, questões sobre nossas escolhas… pano pra manga. Amei sua resenha e fiquei com mais vontade ainda de assistir! Já estou incomodada rs

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