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Sons

O início era uma melodia quase triste, levemente impedida de se propagar por uma parede de vidro, mas que insistia em arrepiar as mãos que tocava seus cabelos. A cabeça sobre o seu colo e um sonho se esvaindo, levado por suas parcas palavras envolvidas pela melodia insistente.

Acabou-se a melodia, momentos de silêncio. Apenas o tilintar de duas taças de vinho. Silêncio.

No florescer de uma orquídea, um novo tom. Mais vibrante, belo e contagiante. Quanto tempo contagiou o seu ser? Eternamente! Qual é o cheiro desse som? Cheiro de vida!

A vibração nunca cessará, mas a distância se colocou entre o belo e o que sobrou dela. Ao separar o que era seu e o que era do som vibrante, descobriu a triste melodia falsamente adormecida! Tapou os ouvidos, tentou fingir a inexistência da melodia, mas o gosto deste som era implacável aos seus sentidos.

Parou de fugir, ouviu a melodia até o fim. Silêncio. As vezes, escuta, mesmo com o impedimento da distância, a bela e vibrante melodia, a tocar o seu corpo, a tocar o seu ser redescoberto, a entranhar pelos seus poros a essência da vida.


Sobre tufões e borboletas

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Ela está no balanço feito de pneu velho carinhosamente montado pelo seu avô em uma mangueira a poucos metros de sua casa, sente o cheiro das frutas logo acima da sua cabeça, inclina o corpo e as observa. Sua fruta preferida, estão quase maduras! Balança mais alto e a cada movimento, a cada respirar, sente mais intensamente o perfume doce e o sabor da vida.

Observa sua casa, a rua distante, o rio logo abaixo e alguns carros, pequenos pontos ao sul. Continua a balançar, agora com os olhos fechados, sente o vento e o aroma em um momento de total introspecção. Consegue sentir o ar penetrar em cada ponto do seu corpo, pela primeira vez, todo o corpo faz sentido e como se ocorrece um lapso no tempo, abre os olhos e vê tudo cinza. O balanço vai a toda a velocidade e ela não consegue controlá-lo, percebe que ele se desprendeu da árvore e está a metros do chão. O movimento não é mais de um pêndulo e sim circular.

Assutada, percebe que sua casa e os carros também giram na mesma parede circular invisível de vento, estão no centro de um tufão. A velocidade do vento, torna seus pensamentos e sentidos confusos, mas o seu corpo, assim como sua respiração permanecem intactos. Pânico, teme não descer novamente, teme que o vento pare e que seja arremessada, teme o fim. Observa sua casa se desfazendo, os carros já não estão mais ali.

Seu coração está disparado, fecha os olhos e abre novamente. Vê millhares de borboletas voando intactas a influência do furacão. Como elas conseguem? Movimentos sincronizados de subida e descida. Borboletas roxas.

De repente, se percebe no meio delas, não, se percebe como uma delas. O medo sumiu e o vento se torna agradável. O voar é um prazer. Se afasta do grupo e voa, para onde seu coração manda. Enfrenta novos tufões, mas agora eles não lhe causarão mais medo.



A beleza da congruência é que ela não precisa ser explicada.

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Instabilidade é a palavra, onde se vende constância.

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