O filme, o real. A santa e a puta.


 “Ninfomania. Um invento dos homens para que as mulheres se sintam

culpadas se saem da normalidade. Cada um é como é, nada mais…”

 A sexualidade feminina, ou melhor, o controle da sexualidade das mulheres, assume diversas configurações na sociedade e é o eixo das representações que compõem as dicotomias Puta X Santa, Mulher de família x Mulher de rua, Maria X Madalena, que sim, ainda assombram e estão no cerne da lógica de violência de gênero. “Achamos que era uma garota de programa!”, não foi assim que um grupo de jovens de classe média se justificou ao espancar uma empregada doméstica?

Ao ver o filme espanhol Diário de una Ninfómana (2008), cujo o título no Brasil é Diário Proibido, inicialmente minha atenção voltou-se para o título e para a tradução. O próprio conceito de ninfomania, sexo por vício e não por prazer, é aplicada somente ao feminino, a sexualidade exagerada da mulher é vista como vício, a do homem, necessidade. O cerceamento social da sexualidade e do desejo feminino se consagra na patologização. A outra questão é que na tradução brasileira a palavra ‘ninfomania’ foi substituída pela palavra ‘proibido’, compactuando com o lugar de tabu ocupado pela sexualidade das mulheres.

Este filme está sem dúvida, na minha lista de filmes prediletos e quando o assunto é as relações de gênero e/ou feminismo ele certamente é o meu favorito. Além de ser um filme belíssimo em termos de imagens, músicas e cenas, a história remete a diversas questões do universo feminino, tratadas de uma forma leve e ao mesmo tempo instigadora de um pensamento crítico sobre as situações vividas por Valérie, a personagem principal. Traz os conflitos e prazeres sexuais de uma mulher que possuí um imenso desejo sexual e vontade de comunicar-se através do corpo frente a incompreensão do seus desejos pelas normas sociais.

Do casamento à prostituição, da santa à puta, a história tece elementos importantes para se pensar a questão da violência de gênero compreendendo-a como um fenômeno sócio político de dominação. Ao se casar com um homem pelo qual se apaixona, Val abre mão das suas experiência em busca de prazer por um sexo razoável e descobre as mazelas de se tornar “domesticada” por um comportamento aparentemente protetor e atencioso do marido. Além disso, o filme mostra com clareza o famoso Ciclo da Violência Doméstica com suas três fases: Tensão, Violência e Lua-de-mel. Este ciclo descreve a grande questão levantada pelas pessoas ao dialogarem sobre o tema: “Porque estas mulheres voltam para os homens agressores?”, “Ela deve gostar de apanhar, não saiu de casa até hoje!”. Contudo, Val sai de casa, rompe o ciclo e faz um aborto, tudo com o apoio de sua amiga e ao ruído de “não vai se livrar de mim sua puta de merda!”. A amizade no filme é um elemento importante, assim como em situações reais. Fortalecer o ciclo de amizade pode ser um caminho no atendimento ao combate a violência de gênero.

A prostituição de luxo se apresenta como um solução para o irrefreado desejo sexual de Valérie. Puro engano! Ao negar um pedido de casamento de um cliente, Val é estuprada e mais uma vez a condição de puta é evocada para justificar a violência, “Está reclamando de que, você escolheu ser puta”. Afinal, puta pode apanhar não é mesmo? Dizer que a mulher é uma puta, vagabunda e que esta com outro homem é a desculpa preferida dos homens que cometem agressão, a violência aparece como um corretivo ou algo justificável frente ao comportamento da mulher. “A minha roupa curta não é um convite ao estupro”, “O meu corpo, o meu desejo, não lhe pertence”, foram algumas frases levantadas na Marcha das Vagabundas na cidade de Belo Horizonte da qual participei em protesto a estas justificativas de violência contra as mulheres.

O paralelo entre a prostituição e o casamento, ambos espaços de dominação e controle é importante, não no sentido de colocar nós mulheres, como vítimas da situação, mas de pensar as representações sociais que geram violência de gênero. A vitimização não ajuda em nada, precisamos ser agentes da nossa história para construir novas formas de vivência e de relacionamento. Dois personagens do filme me ajudam a explicitar o que quero dizer com a ideia de sermos atrizes de nossas histórias e da construção de novos enredos:

Hassan é um amante e amigo de Val, que lhe compreende em sua liberdade e em seu desejo, a respeita como pessoa, os dois tem uma relação de amor e amizade, sem possessividade e é ele que no final da história se apresenta como uma nova possibilidade, um novo enredo.

O outro é um cliente paraplégico com sensibilidade apenas nas mãos e pescoço que ajudou Val a despertar novamente o desejo pela vida, “move os dedos das mãos, para você é fácil. Pois eu sou incapaz de mover um só dedo. Não sabe, quantas vezes, de repente, imagino que minhas mãos começam a se mover e meus dedos também, me levanto da cadeira e começo a correr…Deveríamos gostar mais de nós mesmos Valerie… Valerie viva!”. Há experiência, repletas de sentimento que nos desloca, em que a vida ganha sentido e nos sentimos mais próximos de quem a gente verdadeiramente é. Novamente Valerie se redescobre “Lentamente comecei a acariciar meu corpo. Por fim tinha descoberto que caminho seguir, o de ser eu mesma”.

Após esta experiência, Val sai na chuva e vai até a casa da amiga lhe agradecer pela amizade “O que vai fazer agora?” Viver!”

O filme termina com uma frase que eu simplesmente amo: “Sou uma mulher promíscua sim, porque procuro utilizar o sexo como meio para encontrar o que todo mundo procura. O que há de patológico nisso. Se quiser me chamar de alguma coisa, vá em frente, não me importa, mas saibam que o que sou de fato é uma nereida, uma dríade, uma ninfa simplesmente”. Acrescento a este trecho maravilhoso, que eu não caibo onde queira me enquadrar, eu transbordo!

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A hora da estrela: Gênero e Raça

A literatura, assim como a arte de forma geral, é um artefato da cultura, uma maneira de expressão da subjetividade. E é na dialética do eu com o mundo, tanto na produção literária quanto na leitura de um obra, que situa o meu interesse. Uma obra literária pode ser utilizada tanto para manter ideologias e relações sociais de dominação como pode ser algo que ultrapassa a lógica dominante e denuncia situações de opressão. Assim, podemos utilizar a literatura como ferramenta de investigação social, reflexõs teóricas e propostas de intervenção. A literatura não é um simples reflexo passivo de situações sociais, ela é uma prática, uma produção material da sociedade perpassada pelas relações de poder, pelos preconceitos, por representações sociais e por visões de mundo.  Escrever é um processo em que colocamos nossas elaborações do mundo, angústias e invenções, porém a escrita nos ultrapassa e nos reorganiza.

A leitura do livro A Hora da estrela de Clarice Lispector incomoda. Incomoda pois, pode ser lido como uma denúncia de uma situação social. A história traz uma angústia que ao mesmo tempo fascina, porque retrata uma pessoa qualquer, ou melhor, uma “nordestina qualquer” que nos colocou defronte as mazelas, dos mais diversos aspectos, encontradas na nossa sociedade. E o livro todo é realidade, “qualquer que seja o que quer dizer ‘realidade’”.

Clarice Lispector, de uma forma consciente e irônica usa e abusa dos estereótipos para provocar o/a leitor/a sobre a situação do/a imigrante nordestino/a, “Ela quis mais porque é mesmo uma verdade que quando se dá a mão, essa gentinha quer todo o resto, o zépovinho sonha com fome de tudo”. Através de uma imagem estereotipada do nordeste e das relações de gênero ela criou personagens que convidam a pensar sobre preconceitos, diferenças de classe, relações raciais e étnicas na sociedade moderna. 

Para se pensar a questão do nordeste ilustrada no livro é importante lançar mão dos conceitos de raça e etnia, conceitos próximos, porém não sinônimos. Segundo Munanga o conceito de raça foi inicialmente utilizado no campo da biologia e desde o início os cientistas se deram o direito de hierarquizar, isto é, de estabelecer uma escala de valores entre as chamadas raças(Munanga p.7). Porém diante da inoperabilidade do conceito frente aos estudos de genética , raça foi deixando de se tornar uma realidade e tornou-se um conceito. Atualmente este conceito é empregado quando se quer designar conteúdos etno-semânticos ou políticos ideológicos. Assim, é um conceito “carregado de ideologia, pois como todas as ideologias, ele esconde uma coisa não proclamada: a relação de poder e de dominação” (Munanga, p.81). Para este mesmo autor, a classificação da humanidade em raças hierarquizadas se fortaleceu através de teorias pseudo-científicas que serviram para legitimar e justificar relações de dominação durante o século XX e que foi recuperada pelo nazismo como justificativa para as exterminações durante a segunda guerra mundial. Assim o racismo para esse autor é a tendência que consiste em considerar que as características intelectuais e morais de um dado grupo, são consequências diretas de suas características físicas ou biológicas” (Munanga p.11).

Já a etnia, é um “conjunto de indivíduos que, histórica ou mitologicamente, têm um ancestral comum; têm língua em comum, uma mesma religião ou cosmovisão; uma mesma cultura e moram geograficamente num mesmo território” (Munanga, p.18). Este conceito ganhou força depois da segunda guerra, por ser mais cômodo falar em etnia do que em raça.

Porque trazer o conceito de etnia para se pensar a questão do nordeste presente no livro A hora da estrela? No cotidiano representamos o nordestino como pertencente a um grupo social, “o nordestino”, aquele “cabra safado” como Olímpico ou uma “nordestina qualquer” como Macabéa. O/a nordestino/a é reconhecido não apenas por serem pessoas que compartilham um espaço geográfico de origem, o/a nordestino/a é reconhecido a partir de sua cultura, do modo de falar, dentre outras coisas, mas principalmente a partir dos estereótipos construídos sobre o povo do nordeste, “O rapaz e ela se olharam por entre a chuva e se reconheceram como dois nordestinos, bicho da mesma espécie que se farejam”.

Mas pensar na questão do nordeste a partir do conceito de etnia não excluí as questões relacionadas à raça, visto que o/a nordestino/a é representado também pelas suas características físicas e morfológicas, pois devido às características da miscigenação em grande parte do nordeste, a sua população se constitui em sua maioria de pardos, “Olímpico talvez visse que Macabéa não tinha a força da raça, era subproduto…”. A questão racial também surge no livro na passagem em que, Olímpico termina o namoro com Macabéa para ficar com Glória: “Glória possuía no sangue um bom vinho português e também era amaneirada no bamboleio do caminhar por causa do sangue africano escondido. Apesar de branca, tinha em si a força da mulatice”.

Assim, Clarice tanto abusa dos estereótipos que até a metade do livro não nomeia a personagem principal de Macabéa, fala apena “a nordestina” deixando com que nós confrontemos com nossas próprias representações de uma mulher imigrante no nordeste, como tantas outras. Ao ler o livro, repetidamente a palavra nordestina, mexeu com todas as minhas representações sobre uma imigrante do nordeste. Qual o motivo que a autora não nomeia Macabéa desde o início do livro? Macabéa não representa apenas uma pessoa e sim uma situação social. Colocar em pauta a questão do nordeste é fazer entrar em contato com toda uma concepção, uma representação de um povo e de um lugar. O nordeste é quase sempre representado como o lugar da miséria, da seca, menos desenvolvido do que o sudeste, de onde vem o/a imigrante estranho/a e não adaptado/a as grandes cidades do sudeste. “Dava-se melhor com um irreal cotidiano, vivia em câmera leeenta, lebre puuuuuulando no aaaar sobre os ooooouteiros….

Assim como as questões de raça e etnia, Clarice coloca em pauta a questão de gênero. Macabéa representa a mulher passiva, dependente, desamparada que mal tinha conhecimento de si, ao mesmo tempo era um corpo doente, incapaz de absorver as especificidades de gênero: “E tinha um luxo, além de uma vez ir ao cinema: pintava de vermelho grosseiramente escarlate as unhas das mãos. Mas como roia até quase o sabugo, o vermelho berrante era logo desgastado e via-se o sujo preto por baixo”. Macabéa é uma mulher não adaptada as especificidades de gênero, o que faz pensar que a criação da personagem é uma denúncia ou resistência a ditadura de gênero e de beleza feminina. Já na infância, foi criada por uma tia que lhe impunha o comportamento adequado às mulheres, a tia “considerava de dever seu evitar que a menina viesse um dia a ser uma dessas moças que em Maceió ficavam nas ruas de cigarro aceso esperando homem”. Assim, Macabéa era doce e obediente, tinha comportamentos destinados às mulheres que não querem ser prostitutas, ou “da vida”. Na dicotomia “mulheres de família” versus “mulheres da vida”, Macabéa é uma mulher de família, virginal, submissa e medíocre.

Olímpico é a representação da masculinidade, é ambicioso, viril, esperto e dominador. Já no nome demonstra esta questão, Olímpico denota algo forte, poderoso, vencedor. Busca a vida pública, quer virar político e ganhar muito dinheiro. Ele quer sempre manter o lugar superior a Macabéa, não acha nada do que ela diz interessante e demonstra saber coisas que não sabe. Culpabiliza Macabéa por tudo, até pela chuva.

Clarice cria o personagem narrador homem para dizer sobre essa situação social: “pois se fosse mulher ia chorar piegas”. Isso demonstra a ironia de Clarice diante das representações de gênero, ela através do narrador homem, consegue escrever sobre a realidade e sobre uma situação social, se fosse uma narradora mulher iria tratar a questão com sentimentalismo. Mas na realidade o narrador é a própria Clarice, com suas angústias e reflexões, mas para ironizar as representações sobre a escrita feminina,  inventa um narrador homem. Uma mulher escreve como um homem escreveria, mais uma denúncia da autora, agora relacionada às questões de gênero. Bell hooks discutie sobre a questão de usar a linguagem do opressor para dialogar, ou para simplesmente falar com ele: “Esta é a língua do opressor, no entanto eu preciso dela para falar com você” (hookes, 2008, p.857). Assim, ironicamente Clarice fala como um homem para legitimar a sua denúncia social de gênero.

Outro ponto importante sobre as relações de gênero colocada no livro é que Macabéa representa o que Butler (1993) traz como abjeção. O ser abjeto é aquele que tem sua própria humanidade questionada sendo assim, passível de violência (Butler, p. 25, 1993). O/a nordestino/a, assim como diversos segmentos da sociedade como negros/as, homossexuais, mulheres, dentre outros, representam o menos humano, pois na própria construção da humanidade se estabelece a gradação entre mais ou menos humano. Para ButlerO abjeto designa aqui precisamente aquelas zonas ‘inóspitas’ e ‘inabitáveis’ da vida social, que são, não obstante, densamente povoadas por aqueles que não gozam do status de sujeito”. (Butler, 2001, p. 155). No caso de Macabéa, além de nordestina, ela é uma mulher, imigrante, pobre, feia, submissa, medíocre, que faz dela uma pessoa não centrada, quase fora das fronteiras do humano, lugar em que as violências são justificadas: “… cara de tola, rosto que pedia tapa”.

A minha reação ao ler o livro é que eu já conhecia Macabéa, assim como a autora disse: “Se sei quase tudo de Macabéa é que já peguei uma vez de relance o olhar de uma nordestina amarelada. Esse relance me deu ela de corpo inteiro”. Mas porque ela tanto me incomodou? Talvez porque ela represente tudo o que eu não quero ser, mas que em alguns momentos eu sou. Porque ela representa a passividade, o abandono, a submissão, a pobreza, porque ela representa tudo aquilo que me incomoda no mundo, porque ela representa a submissão de milhares de mulheres, porque há um pouquinho de Macabéa em todas nós. A minha vontade era de dizer: “Reage Macabéa”, de sacudir o livro para não ler o final previsto, da mesma forma que tinha vontade de sacudir algumas mulheres atendidas durante o estágio de psicologia na delegacia de mulheres. Da mesma forma que me olho no espelho e digo “Reage Liliane”. O que a prende nesta situação de violência? O que nos mantém neste ciclo de discriminação e violência na qual estamos submetidas? Como é complicado lidar com estas questões tão coladas no cotidiano, muitas vezes naturalizadas ou invisibilizadas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 BUTLER, J. (2001) Corpos que pesam: sobre os limites discursivos do sexo. Tradução de Tomaz Tadeu da Silva. In: LOURO, Guacira Lopes (Org). O corpo educado. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2001. p. 153-171

 HOOKS, B. Linguagem: ensinar novas paisagens/nova linguagens. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, 16(3):857-864, setembro-dezembro/2008

 LISPECTOR, C. 1977. A hora da estrela. Editora Rocco 2008

 MUNANGA, K. Uma abordagem conceitual das noções de raça, racismo, identidade e etnia. Disponível em: < http://www.acaoeducativa.org.br/downloads/09abordagem.pdf >  acesso em 03 de julho de 2010.

VIDAL, M. A mulher nordestina em a hora da estrela: o ensaio intelectual de clarice lispector. disponível em  < http://www.letras.puc-rio.br/catedra/revista/gandara_08.html > acesso em 06 de julho de 2010